A DAMA NA ÁGUA

 

Talvez nem mesmo Shyamalan imaginasse que uma história de ninar, criada para entreter suas filhas, fosse se tornar seu mais novo projeto cinematográfico.

 

Da piscina de um condomínio, onde vivem pessoas sem nenhuma perspectiva, surge uma misteriosa garota chamada Story, que revela ser uma Narf, suposto ser encantado que veio direto do Mundo Azul à nossa realidade afim cumprir uma importante missão. E após isso retornar à sua terra natal com a ajuda dos moradores locais.

 

É exatamente esta a premissa de A DAMA NA ÁGUA, filme que estreou nos cinemas brasileiros em 01 de Setembro e que apresenta uma fase diferente na carreira de M. Night.

 

Este é o filme mais acessível do diretor. Não há grandes reviravoltas na trama, nem finais surpreendentes. Mas uma história edificante, repleta de personagens carismáticos e situações que vão do riso à tensão, podendo passar por lágrimas sutis.

 

E mais uma vez Shyamalan demonstra seu domínio de cena em uma infinidade de criações.

 

A forma como se utiliza do ponto focal da lente, deixando o primeiro plano em desfoque parcial e revelando Story ao fundo, quando surge na piscina, é genial. Ou ainda quando observamos tudo por cima, em um belo movimento de câmera da direita para a esquerda, dando a impressão de estarmos folheando um livro.

 

E não havia escolha melhor para o papel da garota Narf senão Bryce Dallas Howard. Após sua graciosa interpretação como Ivy Walker em A Vila, ela vive com intensidade a dama do título.

 

E foi na construção desta personagem, que Shyamalan acertou novamente. Ela é repleta de camadas, a começar pelo próprio nome (História), que podem passar despercebidas por muitos, mas que farão a diferença para os mais exigentes.

 

Paul Giamatti é outro que se adequa perfeitamente ao papel. Sua interpretação é tão interessante que fez Shyamalan cotá-lo novamente para seu próximo projeto, ainda em desenvolvimento.

 

Como era de se esperar em um trabalho de M. Night, diversos simbolismos são apresentados em cada cena, discutindo nesse ínterim temas como o poder da comunicação, a importância de crer em nossa própria história e a necessidade de se interpretar os fatos à nossa volta e não apenas olhar a superfície rasa das coisas.

 

Com todas estas características, A DAMA NA ÁGUA é um filme essencial para a filmografia deste talentoso cineasta.

 

 

Abraços a todos... e ótimos filmes!

 

M. NIGHT SHYAMALAN

 

Em recente entrevista para a revista SET, o diretor americano, descendente de indianos, M. Night Shyamalan disse que não aceitaria um convite para dirigir uma franquia, pois isto significaria abdicar de seus filmes mais pessoais.

 

Oficialmente, seu surgimento no mundo Cinematográfico se deu com O SEXTO SENTIDO, filme de roteiro primoroso que permitiu ao cineasta demonstrar um talento singular como diretor cênico e de atores.

 

Porém, antes disso, existiram algumas tentativas frustradas. Praying With Anger, feito em família, nunca foi lançado comercialmente e Olhos Abertos, filme pequeno, teve pouca visibilidade.

 

Demonstrando grande ecletismo, quase ao mesmo tempo em que fez O Sexto Sentido, escreveu o roteiro – dirigido por Rob Minkoff – do simpático Stuart Little, que conquistou a garotada com as aventuras de um pequeno rato adotado por uma família humana.

 

Após o frenesi de seu filme-de-fantasmas, esperava-se outro projeto de mesma conotação.

 

Para surpresa de todos, foi concebido CORPO FECHADO (péssima tradução para The Unbreakable1). Uma verdadeira homenagem às histórias em quadrinhos, cheia de nuances e complexidade narrativa.

 

M. Night Shyamalan começara a se definir como um artista da sétima arte, e não um produto Hollywoodiano.

 

Neste momento, o que era unanimidade, começou a dividir opiniões. Muitos não compreenderam a proposta do filme, que foi erroneamente vendido como suspense sobrenatural, pegando carona no sucesso anterior.

 

Dois anos mais tarde, em 2002, SINAIS chegou aos cinemas. Seus admiradores aguardavam ansiosos. Assim como os detratores, que logo ao lançamento do filme, já faziam críticas infundadas, demonstrando claramente não terem reconhecido os objetivos da história, retratada com primoroso trabalho de câmera, já peculiar ao diretor.

 

Esta verdadeira perseguição estabelecida por alguns membros da crítica especializada e de freqüentadores – e não admiradores – de cinema se intensificou quando Shyamalan, em A VILA, apresentou sua versão sobre “a cultura do medo” e a “fuga das responsabilidades sociais”, já abordadas por outros estudiosos e escritores como no clássico Peter Pan de J.M. Barry.

 

Um filme de M. Night Shyamalan nunca é de fácil assimilação. O roteiro aborda temas de relevância contundente disfarçados por personagens curiosos, localizações abissais ou fenômenos além da imaginação.

 

Diversas leituras podem ser feitas de uma simples tomada ou movimento de câmera. E isto faz deste cineasta um exemplo raro no ambiente cinematográfico americano.

Abraços a todos... e ótimos filmes.

 

1. The Unbreakable, "O Inquebrável", referência direta ao personagem de Bruce Willis, cujos poderes o tornam praticamente invulnerável e também à sua personalidade imutável, que não aceita novas possibilidades, incluindo sua verdadeira natureza.

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felipe MACHADO
BRASIL, Sudeste, SANTO ANDRE, Homem, de 20 a 25 anos, Portuguese, English, Arte e cultura, Bebidas e vinhos
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